segunda-feira, novembro 24, 2008

Desenvolver as comunidades rurais. Melhorar as condições de vida do povo.

O governo de Timor tem à sua disposição recursos financeiros do Fundo Petrolífero que deverão ser utilizados para aliviar a pobreza em que vive a maior parte da população. A comunidade internacional deverá continuar a colaborar com o estado e a sociedade timorenses em áreas como a formação dos recursos humanos e de quadros ou no apoio ao desenvolvimento científico, entre outras.

O investimento na educação é uma necessidade óbvia. A promoção da educação deverá ser sempre feita a par da promoção da impressionante diversidade cultural timorense, da divulgação das culturas locais e da manutenção das várias línguas, do fataluco ao baiqueno, que por isso, também devem ser ensinadas nas escolas das regiões onde são faladas. Só um povo culto e ciente da sua cultura é verdadeiramente independente.


Escola rural de Abafala (entre Laga e Kelikai)


O governo deve fornecer o pequeno almoço e o almoço aos alunos de todos os níveis escolares pois isso deverá ter enorme repercussão positiva no desempenho académico, na saúde dos alunos e na redução do número de alunos que faltam às aulas.

A formação profissional alargada a todo o território, com aulas nas aldeias, aberta a todas as faixas etárias e em áreas como criação e manutenção de infra-estruturas (instalações eléctricas, utilização e manutenção de painéis solares fotovoltaicos ou de geradores a diesel, captação de água através de furos ou pequenas barragens e seu tratamento, construção e manutenção de pequenas redes de esgotos, conservação de caminhos e estradas, trabalhos em madeira e fabrico melhorado de barcos, casas tradicionais, etc…) informática, agricultura sustentável, agro-florestação e cuidados básicos de saúde. Ampliar ainda mais o trabalho pioneiro do Centro Nacional de Formação Profissional, em Tibar.

Melhorar as condições de saúde do povo, criar postos médicos nas knuas (um médico e uma enfermeira por 5000 residentes (Sachs, 2005) ), com fornecimento de medicação anti-tuberculose, redes mosquiteiras e medicamentos anti-malária . Tal como os outros países das zonas tropicais, Timor é afectado por malária e dengue, duas doenças transmitidas por mosquitos. A malária é responsável por muitos alunos faltarem às aulas todos os dias e leva à morte de muitas pessoas. Estas pequenas unidades de saúde poderiam ainda fornecer informação sobre planeamento familiar e dar assistência eficaz no parto e nos primeiros tempos de vida dos recém-nascidos, o que contribuiria para reduzir as altas taxas de natalidade e reduzir a mortalidade infantil(Sachs, 2005) .

Na área agrícola deve ser promovida em grande escala a agro-florestação como forma de acabar com a erosão e de promover a biodiversidade. Fomentar o cultivo das espécies florestais mais valiosas (sândalo, teca, pau rosa, mogno e pau ferro ), o cultivo de espécies para lenha doméstica (eucalipto branco, eucalipto negro (palavões, ai bubur)), divulgar as boas práticas florestais, a agricultura em socalcos, assim como o melhoramento das técnicas da produção e da qualidade do café.


O excessivo corte de árvores desta encosta levou à destruição deste espaço de floresta (Abafala)

Técnicas simples de agricultura sustentável devem ser divulgadas: adubação verde, compostagem dos resíduos e dos restos domésticos, construção de muretes de controlo de erosão, recolha de água para a rega e técnicas de irrigação, pois um dos grandes problemas da agricultura em Timor é fazer face à escassez de água da bailoron, a estação seca (que na costa norte pode chegar a 8 meses seguidos nos anos piores). Os agricultores devem ter acesso a sementes de milho e arroz melhoradas, assim como a variedades mais produtivas de tubérculos e raízes (batatas, batata doce, mandioca, taro, etc…).


Bairro pobre de Díli: uma senhora planta uma mangueira

Outro grande problema dos agricultores das zonas tropicais também existente em Timor: o armazenamento das colheitas. Contrariamente ao que muitos pensam a maior parte das colheitas não se perde no campo, mas sim na fase da armazenagem. Pequenos armazéns para os cereais e para o café . Um dos grandes problemas do café em Timor é ser armazenado em casa, onde absorve muitos odores prejudiciais.

Na área da produção de gado há que melhorar o nível produtivo dos bovinos balineses fazendo chegar aos agricultores reprodutores seleccionados, assim como combater as principais doenças infecciosas e parasitárias. Na área da alimentação existe grande potencial para arbustos forrageiros e para o aproveitamento dos resíduos fibrosos na alimentação dos ruminantes. Nesta área a Cooperativa Café Timor tem feito trabalho de grande interesse. Faltam matadouros e controlo veterinário de modo a que a carne e o leite chegue em segurança aos consumidores.


Bovino de Bali. O "Bos bandeng" é o principal bovino de Timor-Leste, onde produz bem e mostra grande rusticidade. Pertence ao mesmo género dos nossos bovinos, que são "Bos taurus", mas a outra espécie. Os zebus (Bos indicus) são praticamente inexistentes em Timor. Podemos emcontrar alguns na Missão Lopes (Dare).

Mas sem electricidade nas aldeias pouca coisa destas se pode fazer. Esta poderá ser disponibilizada por linhas eléctricas a partir de grandes centrais, ou a partir de geradores e painéis fotovoltaicos. Com electricidade podem haver computadores nas escolas, bombas para água potável, energia para moer os cereais, frigoríficos e carpintaria, carga para as baterias das famílias (Sachs, 2005). Com luz eléctrica os alunos podem estudar de noite, pequenas unidades de turismo rural podem dispor de ar condicionado.

Uma camioneta por aldeia poderia ajudar a carregar fertilizantes para os campos e outros factores da produção agrícolas, assim como escoar a produção para Dili. Transportar botijas de gás para a aldeia (no Irão o governo fornece fogões a gás/querosene para reduzir o corte das árvores que impedem a erosão das terras, e o mesmo deveria ser feito urgentemente em Timor. Muitas crianças também perdem tempo precioso a carregar lenha para o lar), levar doentes e mulheres grávidas ao hospital (Sachs, 2005).


Extensão rural em acção numa estrada da ponta Leste: Vamos proteger as nossas florestas, voltar a plantar árvores onde a floresta desapareceu e ter cuidado com o fogo na estação seca.

As necessidades de água potável e saneamento deverão ser satisfeitas rapidamente. Mulheres e crianças gastam horas sem fim a carregar água de uso doméstico num trabalho esgotante e impeditivo do desenvolvimento pessoal. Dispondo de furos de água potável tudo se resolveria. As comunidades necessitam igualmente de casas de banho e de sanitas com fossas de modo a impedir a propagação de doenças provocada pelos esgotos a céu aberto.

Satisfazer as necessidades de capital, que passam por atribuir títulos de propriedade das terras aos agricultores e garantir o acesso ao microcrédito para o desenvolvimento de pequenos negócios e indústrias.


Pequenas indústrias familiares de produção de brita (Laga)

Para saber mais: Jeffrey Sachs, “O Fim da Pobreza – como consegui-lo na nossa geração” (Casa das Letras, Lisboa, 2005).

segunda-feira, outubro 20, 2008

O Trigo em Timor-Leste

O Trigo

O trigo é uma importante cultura alimentar, particularmente na Europa, América e no Médio Oriente. Nas zonas tropicais cultiva-se como cultura de altitude, geralmente integrando sistemas agrícolas com bovinos de leite. Existem disponíveis muitas variedades, para as diferentes altitudes. Geralmente a cultura só vai até aos 2800 metros. Os principais países tropicais produtores de trigo são a Índia, o Paquistão, Brasil e o Egipto. Em Timor-Leste o trigo é cultivado em pequenas parcelas, nas terras altas do interio, particularmente Aileu, Gleno, Ermera, Ainaro e Laclubar, onde os declives são as principais restrições a esta cultura..Estima-se em 11.000 há a área potencial para esta cultura em Timor-Leste (Luz, 2003).


Rotação

Três anos de trigo seguidos de três anos de pastagem para o gado pode ser uma rotação adequada. Se a rotação incluir culturas hortícolas tanto melhor, especialmente se destas fizerem parte leguminosas (feijão, amendoim, etc….).

Selecção das sementes

Os agricultores devem usar semente certificada de boa qualidade obtida nos serviços do Ministério da Agricultura ou numa empresa de confiança. A semente certificada tem as seguintes características:
a) Não contém sementes de plantas infestantes
b) Tem grãos saudáveis, sem estarem partidos ou esmagados,
c) São de uma variedade que assegura a maturação de todas as plantas ao mesmo tempo

As sementes devem ser misturadas com Aldrin ou Dieldrin para ficarem protegidas contra as doenças do solo. O tratamento com cobre também poderá ser necessário em algumas zonas, onde exista deficiências neste elemento.

Fertilizantes

A quantidade de fertilizante aplicada depende do tipo de solo, da cultura anterior e da fertilidade da terra no momento da instalação da cultura. Um teste ao solo pode ser efectuado de modo a estabelecer um plano de adubação adequado. Geralmente aplicam-se entre 100 e 160 Kg de um adubo contendo um terço de azoto e dois terços de fosfatos. Os estrumes bem decompostos e as folhas de árvores leguminosas (como o ai-santuco ou albizia das molucas) também são uma boa opção.

Preparação da terra

Alguns agricultores queimam as palhas e o restolho depois das colheitas. Isto torna a lavoura mais fácil e destrói muitas pragas da cultura. Todavia, como os solos são pobres, estes resíduos devem ser incorporados no solo, dentro do possível, de modo a aumentar o seu teor em matéria orgânica e melhorar a sua estrutura.
Nos terrenos com restolho a preparação do terreno deve começar 1-2 meses depois das colheitas. Revolve-se a terra em profundidade quer manualmente ou , se houver tracção mecânica ou animal, com uma charrua . De seguida desfazem-se os torrões maiores. Se se dispuser de tractor ou de tracção animal fazem-se duas ou mais passagens com um vibrocultivador ou grade de bicos, respectivamente.
No primeiro ano de trigo deve-se lavrar o terreno pelo menos 4 a 6 meses antes da sementeira. Desta maneira assegura-se a mineralização da matéria orgânica e a conservação da humidade do solo. Neste período enterraram-se as ervas que vão nascendo. É de referir que a Embrapa do Brasil desenvolveu um semeador directo por tracção animal, adequado aos pequenos agricultores. Neste período em que a terra permanece de alqueive aumentam os riscos de erosão por grandes chuvadas. Isto é ainda mais significativo se tivermos em conta que o trigo se cultiva em Timor principalmente na zona de Aileu e circundantes, onde os declives são acentuados. Torna-se muito importante por isso proceder à construção de socalcos ou terraços, para instalar a cultura.



Campo de trigo na zona de Aileu (Foto de Eng. João Gomes)

Sementeira

A sementeira deve fazer-se cedo ao começo da estação das chuvas, especialmente para as variedades de ciclo mais longo. A profundidade de sementeira é de 5 – 8 cm. A densidade de sementeira varia com as variedades. As de maior capacidade de afilhamento devem ter densidades de sementeira inferiores. Devem ser seguidas neste caso as indicações dos fornecedores.

Falta de cobre

Algumas áreas podem apresentar falta de cobre no solo. Para corrigir isto envolve-se a semente com 1 Kg de oxicloreto de cobre por 100 Kg de semente. Pulveriza-se ainda a cultura já desenvolvida com o mesmo produto na dose de 1 Kg/há, geralmente misturado com herbicida. A pulverização com cobre pode ser feita quando cultura chega aos 2 meses.

Controlo químico das infestantes

Para beneficiar do uso de herbicidas o agricultor já deve ter uma certa formação técnica. Os pesticidas devem ser aplicados de acordo com as recomendações do fabricante. E de acordo com as espécies de infestantes que se pretendem combater. É fundamental um bom aconselhamento técnico nesta área.

Colheita

Em Timor a colheita do trigo é feita manualmente com uma faca especial ou foice (tudik), tal como no caso do arroz. Isto deve ser feito quando a as sementes já ficaram bem duras. Depois fazem-se molhes e debulha-se quando as plantas já perderam mais humidade.

Principais pragas

Piolho do trigo (Schizaphis graminum)
Alimenta-se dos caules e das folhas, bem como das flores. Propaga vírus desta cultura. O controlo faz-se com malatião, diazinão, Dimetoato ou Formotião.

Nematocerus spp.
Estes insectos consomem as folhas do trigo. No estado de larva alimentam-se das raízes e das sementes em germinação. Deve-se fazer pulverizações com Endosulfan ou Fenitrothion .

Mosca da cevada (Hylemya arambourgi)
A larva desta pequena mosca come o caule das espigas. O combate passa por envolver a semente com Aldrin ou Dieldrin.

Ferrugem da folha (Puccinia recôndita)
Este fungo é mais comum nas altitudes mais baixas. Surgem nas folhas pequenas lesões circulares castanhas, que depois mudam para negro. Para combater esta doença usam-se variedades resistentes.

Ferrugem amarela (Puccinia striiformis)
Surgem borbulhas amarelas em linhas paralelas, tanto nas folhas como nas espigas. Devem usar-se variedades resisitentes a esta doença.

Ferrugem negra (Puccinia graminis)
Surgem nas folhas e nos colmos pústulas longas de cor castanho escuro. Evita-se esta doença pelo uso de variedades de trigo resistentes.

Septoriose (Leptosphaeria nodorum)
Este fungo ataca sobretudo no tempo húmido. Surgem marcas castanhas nas sementes e as folhas enrugam. Deve-se praticar boas rotações para evitar esta doença.

Leptosphaeria herpotrichoides
Surgem manchas castanhas nas folhas e estas acabam por secar. Pratica-se uma boa rotação para evitar esta doença.

Mancha amarela ou mancha bronzeada (Pyrenophora trichostoma)
Este microorganismo desenvolve pintas castanho claras nas folhas. Deve usar-se uma rotação adequada.

Pé negro (Ophiobolus graminis)
É um fungo parasita que se transmite pelos resíduos da cultura que ficam na terra. O ataque começa pelas raízes das plantas jovens e continua pela base do caule. As espigas aparecem esbranquiçadas. Dá-se a queda da planta.
Devem-se praticar rotações longas, assim como proceder a lavouras profundas após a queima das folhas e restolhos para impedir a passagem da doença à cultura seguinte.

Cravagem (Claviceps pupurea)
Forma-se uma massa púrpura ou negra nas espigas. Este fungo só é evitado preventivamente: lavrar em profundidade e praticar uma rotação com milho, feijão ou ervilhas.

Doenças virais
O crescimento da planta é atrasado e formam-se nas folhas listas amarelas ou castanhas. Estas também podem encaracolar e enrugar. Evita-se estas doenças com insecticidas que matam os insectos que carregam os vírus. Também não devemos usar sementes de campos infectados.


Para saber mais:

Luis Miguel Pinheiro da Luz. Análise da aptidão cultural de Timor-Leste utilizando um Sistema de Infomação Geográfica. Tese de Mestrado. Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, 2003.

Joaquim André Sampaio. ACultura do Trigo. Ministério da Agricultura, Pescas e Alimentação. Lisboa, 1990.

Ian MacDonald e John Low. Tropical Field Crops.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Turma 2º ano Ciências Agrárias (2003)



Turma 2º ano Curso Ciências Agrárias nian, hosi Universidade Nasional Timor Lorosa'e tinan 2003, iha projecto cooperação nian Fundação das Universidades Portuguesas. Foto sira ne'e durante aula Zootecnia Geral kona ba anatomia exterior balada nia. Kuda ne'e fo ona hanessan "voluntário", nia fo tulun Amia nia lisaun. Fatin ne'e iha jardin UNTL nian. Dalan sira iha Dili ainda hatudu barak uma motuk. Ha'u triste tebetebes tamba ha'u nia timor maun sira terus...



Hosi karuk ba kuanan: Edita Espirito Santo, Ermelinda Soares, Luis Cunha,Ercilia Guterres, Adelia Alves, Mario Tavares, Sérgio Barreto, Edmundo Martins e Pedro Laranjeira.

terça-feira, setembro 09, 2008

Ai tomati, Tamarilho ou àrvore do Tomate (Cyphomandra betacea Sendt)

O tamarilho pertence à grande família das Solanáceas e é uma pequena árvore que podemos encontrar nas terras altas de Timor-Leste, sendo muito cultivada particularmente na zona de Ermera. A sua origem encontra-se nos Andes, donde se expandiu para todas as zonas de clima subtropical. Em Portugal também se encontra nas zonas temperadas junto à costa.
Esta árvore chega aos 6 m de altura e é facilmente reconhecida pelas suas grandes folhas semelhantes à da teca. As flores são rosa claro e muito discretas. É uma planta monoica hermafrodita (as flores têm os dois sexos).
Prefere clima temperado subtropical, como o clima Cw (tropical de altitude) das montanhas de Timor. Gosta de soltos bem drenados, frescos e ligeiramente ácidos (pH<6), sendo muito sensível à falta de água. É uma planta que prefere situações de plena luz . Não se adapta às hortas muito expostas ao vento, pois este parte as suas grandes mas frágeis folhas.
Esta árvore vive cerca de 6 a 9 anos, entra em produção aos 18 meses, e produz um máximo de frutos aos 3-4 anos.
O fruto é parecido com um tomate, é oval e pontiagudo no extremo inferior. A cor é vermelha ou amarela, e a polpa é ligeiramente ácida com sabor a tomate.
Para cultivar o tamarilho deve-se plantar no início da estação húmida num compasso de 1,5-2 m x 4-4,5 m.. A terra deve ser bem cavada em profundidade, abrindo-se covas com 50x50 cm. O solo das covas deve ser misturado com estrume muito bem curtido de vaca, búfalo, porco ou aves. O tamarilho responde bem à fertilização do solo.
As plantas podem ser reproduzidas por semente, que se enterram num vaso, repicando-se depois as plantas para sacos ou vasos. A germinação é melhorada ao colocar as sementes limpas e secas, 24 horas num frigorífico, antes de semear. Debaixo das copas desenvolvem-se plantas novas a partir das sementes caídas, que se podem depois transplantar para local definitivo (esta é a origem dos tamarilhos que tenho aqui em Sines no quintal e que me deu uma agricultora em Milfontes).
Nas árvores em produção poda-se os ramos mortos e doentes e os que tenham tido muitos frutos. Aplicar regularmente uma camada de estrume e de folhas secas (mulching) à volta das árvores. É muito importante nunca deixar a terra secar. Por isso, na estação seca, a rega aumentará certamente a produção de frutos.
A produção por árvore estima-se em 15-25 Kg/ano ou 15-17 t/há/ano. Armazena-se 12 semanas a 3,4-4,5 ºC. Dura 9 a 10 dias nos postos de venda. O fruto deve ser colhido só quando tem uma cor uniforme (todo vermelho, ou todo roxo).
Esta fruta come-se fresca quando bem madura. Mas também podemos conservar como doce ou conserva e vender. Compota de tamarilho “made in” Timor-Leste. Mãos à obra !
Bibliografia: Pedro Rau, Cultura do Tamarilho.



Flores, folha e fruto de tamarilho (ainda em formação)



Cacho de flores



Tamarilhos maduros no mercado de Emera



Viveiros da Missão Agrícola portuguesa. Esta Missão tem desenvolvido um trabalho notável desde 2000, fornecendo plantas às populações, organizando viveiros comunitários e cursos de formação. Este viveiro é em Ermera e foi organizado com um grupo de jovens desempregados em terrenos cedidos pela igreja local.



Pilha de composto (Ermera). Para obter um bom composto para mulching, fazemos uma pilha com restos de plantas, folhas secas, restos de cozinha, cascas de café, estrume de animais, dejectos humanos, etc... Vai-se regando e mexendo semanalmente. Cobre-se com uma camada de palha de arroz ou outra. Quando estiver como terra (os materiais originais já se custam a distinguir), ao fim de algumas semanas pode-se espalhar à volta das árvores.

terça-feira, agosto 05, 2008

Caliandra: tahan ba balada

A caliandra (Calliandra calothirsus) é um arbusto originário da América Central de onde foi levado para a Indonésia e depois para todas as zonas tropicais. Hoje em dia cultiva-se bastante nos países de clima tropical. Também em Timor-Leste podemos observar algumas plantações recentes de caliandra na Cooperativa Café Timor (Comoro), Brigada Agrícola de Gleno e Missão Lopes (Dare).

É um arbusto de desenvolvimento rápido e que pode crescer até aos 12 m. Pertence à grande família das leguminosa fixadoras de azoto e, por isso, tem grande interesse para melhorar os solos pobres de Timor. Pode vegetar em Timor-Leste em quase todas as regiões excepto na alta montanha, para lá dos 1500 m. Estas zonas já são muito frias para a caliandra. Porém resiste muito bem à secura, suportando até 6 meses sem chuva, pois desenvolve grandes raízes que trazem água das zonas mais profundas da terra.

Largamente utilizada nas Filipinas, na Indonésia e noutras ilhas do Pacífico, para enriquecer o solo, alimentar o gado e os peixes, e produzir lenha. Produz em abundância rebentos, folhas, flores, vagens e sementes de grande valor alimentar para os animais, particularmente na estação seca (bailoron). Resiste melhor aos insectos que atacam outras plantas forrageiras, como a leucena ou ai café. De referir que a caliandra produz flores todo o ano, as quais são muito apreciadas pelas abelhas. É por isso uma planta melífera.

É muito útil na recuperação de solos degradados e em regiões muito atacados por ervas como imperata (du’ut manulai), pois produz muita sombra que mata estas ervas. A sua sombra também é a razão porque se planta a caliandra junto às habitações e nas hortas (foto seguinte: copas de caliandra em Gleno, aliviam bastante o calor no campo timorense)



A caliandra pode semear-se directamente no terreno bem cavado, em conjunto com outras culturas ou em talhões separados, depois de demolhar as sementes durante 24 horas. Também se pode propagar por estacas obtidas a partir dos seus troncos e ramos. Nos cultivos mais densos pode usar-se um compasso de plantação de 2 x 0,5 m. Um processso muito aconselhado é o cultivo das caliandras em ruas afastadas de 5 a 10 m e com outros cultivos no meio dessas ruas (milho, mandioca, etc…). Deve-se ter o cuidado de cortar ou arrancar as ervas que rodeiam as jovens plantas, no 1º ano de vida. Nos solos mais pobres espalha-se e enterra-se algum estrume no terreno, para acelerar o crescimento das jovens caliandras.
Cortam-se os ramos a cerca de 1 m de altura para dar aos animais. Para produzir lenha a plantas devem ser plantadas à distância de 1 x 2 m e cortadas a 1m de altura de 6 em 6 meses.
Na foto seguinte podemos observar a plantação de caliandras da Brigada Agrícola de Gleno, feita pea Missão Agrícola Portuguesa. Na segunda foto bovinos balineses alimentados com gramíneas e ramos de caliandras, na Missão Lopes, em Dare. Nesta quinta os ruminantes são alimentados com uma dieta à base de caliandras, gramíneas tropicais e resíduos das hortas. As plantações foram feitas a uma cota inferior à dos estábulos de modo que as plantas recebem a água da lavagem por gravidade. Obtém-se assim uma boa reciclagem dos nutrientes e da água.




sexta-feira, julho 04, 2008

Centro Nacional de Emprego e Formação Profissional - Tibar



Na bela zona de Tibar, a cerca de 10 km de Díli, na direcção de Liquiçá, encontramos o muito acolhedor Centro Nacional de Emprego e Formação Profissional. Nesta instituição dá-se formação profissional nas áreas da agricultura, construção civil, carpintaria, etc.... Tem um jardim e uma biblioteca muito interessantes. Os alunos de ciências agrárias da Universidade Nacional de Timor Lorosa'e vão lá ter algumas aulas práticas (última foto). Podem ir de manhã cedo e passar lá o dia, como eu fiz. O autocarro sai do bairro dos professores portugueses em Caicoli.








Marungi (Moringa oleifera)

Marungi ai importante tebetebes iha hotu mundu tropikal. Nia ai kiik, no sai boot lalais to'o 12 m. Nia forma hanessan guardaxuva. Abut boot tebes. Funan kór creme iha panícula iha bailoron, bainira nia lakon ninia tahan. Aifuan vagem boot ho secção triangular no 30-50 cm naruk. Mussan ho liras. Nia iha barak mina (oleifera katak “ ho barak mina”) no kór matan.

Ecologicamente, marungi gosta rai besik mota no hotu fatin neebé rai hela matak iha bailoron. To’os na’in gosta kuda marungi besik uma tan Moringa gosta lixu no bé hosi dapur. Nia gosta ph 6-8,5 ho temperatura léet 26-40 ºC. Marungi hakarak liu 500 mm udan no bele moris to’o 1000 m .

Moringa oleifera moris fatin iha Arábia, Índia. Ohin Ita bele hare nia iha Áfrika, Ásia manas. Agora ema hahú kuda marungi iha Ilhas Oceanu Pacífico (Kiribati, Samoa, etc…). Iha Timor Ita bele hetan marungi iha to’os sira, maibe Ita bele mós hetan marungi fuik besik dalan no mota.

Marungi bele fo:
- han ba balada maus (karau, karau vaca, etc…)
- tahan ba ema halo sopa, modo,etc... .Nia iha 5-10% proteína, barak vitamina C , A . Ne’e duni marungi halo diak tebes ba saúde ema nian.
- aifuan ba tunu
- abut ba halo salada
- funan ba beni
- ai ba sunu
- musan ba hamoos bé
- proteje to’os kontra anin
- tahan ba baunilha, pimenta, etc...
- mina tanba ninia mussan iha 35% mina. Ema uza mina ne’e ba hahan, lubirificasão, halo sabaun.
Ne’e sa to’os na’in sira bele halo barak osan.

Nu’u sa maka Ita marungi kuda ¿
Ita bele kuda marungi kona ba estaka ka musan . Musan dezenvolve lalais. Tinan ida afoin , marungi iha 5 m !
Infelizmente Moringa oleifera moris to’o tinan 20.

Foto uluk: marungi aifuan
Foto ida rua ne'e: marungi fuik iha Hera dalan
Foto ida tolu ne'e: marungi tahan no funan (iha jardim Centro Nacional de Emprego e Formação Profissional nian)






domingo, maio 18, 2008

Fábrica de Produção de Seda de Triloka (Baucau)



Este é um projecto apoiado pela cooperação australiana e neo-zelandeza. O processo de produção de tecidos em seda de Triloka, divide-se basicamente em 6 etapas: Produção de Folhas de Amoreira; Pavilhões de criação dos bichos-da-seda; Eliminação das larvas no interior dos casulos; Fiação e tecelagem; Tinturaria; Loja de venda dos tecidos acabados.

Produção das folhas de amoreira.
Envolvendo os edificios encontra-se uma plantação de amoreiras. As árvores são mantidas baixas (até 2 m) e plantadas num compasso de 3x3m. As folhas são colhidas diariamente.




Pavilhões de criação dos bichos da seda
Depois de colhidas as folhas de amoreira, um operário corta-lhes os pecíolos.



As folhas são distribuidas pelos tabuleiros onde se encontram os bichos da seda. Pulveriza-se calcário em pó, como suplemento mineral.









Eliminação das larvas no interior dos casulos
Esta etapa efectua-se num forno, onde os animais são mortos pelo calor.



Os fios de seda são depois reunidos num fio mais denso, durante o processo da fiação, em máquinas apropriadas. A seda é tingida no local com corantes naturais, como sumo de amora que dá cor violeta ou folhas de teca maceradas (cor vermelha).



Os artesãos treinam com fios de algodão, antes de tecer com seda.



sexta-feira, maio 09, 2008

As pastagens e as forragens em Timor Leste



AS PASTAGENS E AS FORRAGENS EM TIMOR-LESTE

XXV Reunião de Primavera da Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens, Viseu, 12-14/5/2004

Augusto Joaquim de Carvalho Lança e António Manuel Rocha Parreira
Escola Superior Agrária de Beja
Rua Pedro Soares – 7800 -902 Beja


RESUMO

Este trabalho teve como objectivo identificar e caracterizar plantas forrageiras usadas na alimentação animal em Timor-Leste, com especial destaque para as leguminosas arbóreo-arbustivas: Leucena leucocephala, Gliricidia sepium, Sesbania grandiflora, Calliandra calothirsus, Moringa oleifera, Tamarindus indica e Paraserianthes falcataria. Deu-se especial destaque à utilização destas plantas em sistemas agroflorestais que melhorem a alimentação dos ruminanates durante a estação seca, promovam a recuperação dos solos e contribuam para a segurança alimentar das populações.

PALAVRAS-CHAVE: Timor-Leste, erosão, sistemas agroflorestais, ruminantes, Calliandra calothirsus , Gliricidia sepium, Leucena leucocephala, , Moringa oleifera, , Paraserianthes falcataria, Sesbania grandiflora, , Tamarindus indica.


ABSTRACT

The aim of this work was to identify and characterize fodder plants available in Timor-Lester, particularly those from the leguminous trees group: Leucena leucocephala, Gliricidia sepium, Sesbania grandiflora, Calliandra calothirsus, Moringa oleifera, Tamarindus indica e Paraserianthes falcataria. It was analyzed its importance in agroforestry systems which promote ruminant nutrition during dry season, detain soil erosion and improve people’s food security.

KEYWORDS: Timor-Lester, erosion, agroforestry systems, ruminants, Calliandra calothirsus , Gliricidia sepium, Leucena leucocephala, , Moringa oleifera, , Paraserianthes falcataria, Sesbania grandiflora, , Tamarindus indica.


1.Introdução

Timor-Leste, situa-se na zona intertropical e a esmagadora maioria da sua população depende economicamente do sector agro-pecuário. Pratica-se uma agricultura de subsistência e o café, produzido de modo quase espontâneo, é a principal produção para exportação.
Compreende-se, assim, que o primeiro governo deste país lusófono assumiu o desenvolvimento agrícola como a pedra basilar do seu crescimento económico. Contudo, e tal como na maior parte dos países em vias de desenvolvimento, o território de Timor-Leste tem que enfrentar condicionantes da exploração agrícola que limitam este sector. Tal é o caso de um meio ambiente adverso à agro-pecuária e factores de ordem política e social que impediram o desenvolvimento deste sector. Nestes últimos inclui-se um passado colonial em que prevaleceu o abandono, com uma metrópole situada a 14.000 Km , sempre carente de meios humanos e materiais (Gomes, 1950). Mais recentemente, a colonização javanesa primou pela brutalidade da actuação, levando a cabo uma política de genocídio sistemático . No sector agrícola, uma imagem eloquente deste passado recente, encontramo-lo na destruição sumária do gado, principalmente no pós-invasão (anos 70 e 80) e no período que se seguiu ao referendo libertador de 1999. Presentemente, o novo país necessita da colaboração internacional, tanto em meios técnicos como materiais, para recuperar o sector agrícola e garantir assim, não só a erradicação da fome e da subnutrição, como também a independência económica.
O presente texto resultou da nossa presença naquele território durante quase 3 meses, na docência da cadeira de Zootecnia na Universidade Nacional de Timor-Leste, e das deslocações feitas um pouco por todo o território. Muitas delas foram conduzidas pelos Engº. Pedro Passos e Nuno Moreira, técnicos da Missão Agrícola Portuguesa em Timor, a quem manifestamos os nossos agradecimentos e admiração pelo trabalho desenvolvido.

2. O meio ambiente

O território leste-timorense é dominado por uma cordilheira montanhosa central em todo o seu comprimento , subindo até aos 2960 m do Monte Ramelau , circundada por pequenas planícies costeiras e de cotas muito baixas. Estas predominam na costa Sul avançando aqui para o interior algumas dezenas de quilómetros. É a zona de melhores solos, com terrenos do tipo aluvionar e que contrastam com os restantes solos do interior, muito frágeis e muitas vezes esqueléticos. Na costa Norte as planícies costeiras são raras e de dimensões pouco significativas. A ilha de Timor tem pois um relevo predominantemente montanhoso, com enrugamentos recentes e de origem tectónica, provocados pelo choque da placa australiana com a euroasiática.
O clima tropical que predomina é do tipo Aw (classificação de Koopen, figura 1): tropical de savana, com uma estação de chuvas de monção e outra estação seca. Regista-se ainda clima Am (de monção) e Cw (tropical de altitude ou temperado de Inverno seco) nas zonas mais altas do país, e Bs (árido) em faixas estreitas da costa norte.
O relevo vigoroso da ilha, altera os valores das temperaturas e sobretudo da pluviosidade, pelo que a maior parte dos autores prefere antes a classificação de Schmidt e Ferguson – razão entre o número de meses secos (P<60mm) e húmidos (P>100 mmm) - para uma melhor caracterização do território :
-Climas do tipo C e D da Zona Sul e ponta Leste: é a região mais húmida e mais favorável à agro-pecuária, com chuvas superiores a 1500 mm, temperaturas variando entre 19 e 21 º C e 4 a 5 meses de estação seca;.
- Clima do tipo E do interior norte: já se considera um clima seco, com apenas 5 meses húmidos e temperaturas entre 23 e 26 ºC.
- Climas do tipo F e G do litoral norte: já têm 8 meses a 10 meses de estação seca, respectivamente, e temperaturas médias elevadas situadas entre 27 e 28 ºC. Clima muito adverso à agricultura de sequeiro, mas que é limitado, porém, a uma faixa estreita do litoral norte.
Comparativamente às zonas temperadas, as regiões de clima tropical apresentam geralmente condições menos favoráveis para a agricultura e criação de gado . Os valores mais elevados das temperaturas e das precipitações degradam rapidamente a matéria orgânica e facilitam a erosão do solo. Os acidentes climáticos são aqui mais frequentes, com o seu cortejo de cheias, secas e outras catástrofes naturais (Ruthenberg, 1971). Tudo isto se agrava nas zonas mais acidentadas, como aquela que aqui analisamos, onde a acção dos elementos se conjuga com a acção do homem na destruição do solo das encostas. Gonçalves e Min (1963) estimam que mais de 43% da área de Timor-Leste tenha declives superiores a 20%, limitando-se as zonas planálticas e aluviões interiores e litorais a ocupar apenas 12% da área total.
Desarborizadas pelos machados dos agricultores itinerantes indígenas ou dos exploradores de sândalo (Santalum album) portugueses – estamos no centro de origem desta madeira preciosa – os solos de Timor foram sendo lentamente destruídos ao longo dos últimos séculos. As densas matas originais de sândalo deram lugar a encostas e cabeços pelados, onde o gado agora pasta uma magra erva, por entre ravinas escavadas pelas águas torrenciais. As campanhas promotoras da cafeeicultura dos governadores dos séculos XIX e XX, agravaram ainda mais esta situação em muitos pontos do território, como é o caso das serras de Ossu e Mundo Perdido. Aqui as etapas erosivas sucedem-se inexoravelmente: redução dos colóides orgânicos e minerais, degradação da estrutura, e finalmente o arrastamento do solo mesmo em declives pouco pronunciados, substituindo-se na paisagem o verde exuberante da vegetação pela aridez acompanhada de ravinas (Gonçalves e Min, 1963). Este último aspecto é particularmente impressionante nas encostas que rodeiam Maubisse. Nestas zonas em que florestas primárias ou secundárias são inexistentes devido à acção humana, instala-se uma magra vegetação de savana com predomínio de gramíneas de muito baixo valor alimentar.

Os solos predominantes em Timor-Leste reflectem assim o relevo e a acção humana.. Gonçalves e Min (1963) propõem a seguinte classificação:

- Solos Calcareos Acinzentados (do complexo argiloso) ocupando larga área, de textura muito argilosa. Erosionam facilmente em ravinas, e estando sujeitos a escorregamentos, são designados localmente quando tais características são mais acentuadas por "terras podres";
-Solos Calcareos Cinzentos (de Calcareos pseudoolíticos) : muito delgados; já bastante
erosionados e ocupando relevo bastante dobrado;
-Solos Pardos de Materiais não Calcareos (de grés micáceo); pouco espessos e com
deficiente drenagem interna parecem ter nítida susceptibilidade à erosão;
-Solos Pardos de Materiais não Calcareos ,de xistos argiloso associados a grés micáceo,
de textura acentuadamente argilosa e com sintomas de deficiente drenagem interna;
- Solos derivados de xistos metamórficos ocupando larga área junto de Dili, que pela possível impermeabilidade das camadas inferiores e relevo muito acentuado, são grandemente susceptíveis à erosão.

No que respeita à pecuária, o clima tropical favorece a lenhificação das pastagens e estas dependem da estação das chuvas para se desenvolverem. Por outro lado, a rápida acumulação de lenhina nas células vegetais imobiliza proteína e minerais, originando uma dieta pobre em energia, azoto fermentescível e minerais (Preston e Leng, 1987).
As gramíneas tropicais, são predominantemente do tipo C4, o que significa que produzem mais biomassa por unidade de nutrientes absorvidos. Porém esta biomassa possui menor concentração em nutrientes e digestibilidade do que as gramíneas temperadas C3 e são mais ricas em fibras. Consequentemente, as gramíneas que predominam nas pastagens das zonas tropicais dificilmente chegam para, só por si, suprir as necessidades de manutenção dos animais. Este problema é agravado pela dificuldade com que as leguminosas das pastagens tropicais competem com as gramíneas pela luz e nutrientes, resultando num rápido abafamento daquelas e num abaixamento do valor nutritivo dos pastos (Bayer e Waters-Bayer, 1998).
O aspecto sazonal da produção de biomassa das pastagens tropicais é igualmente determinante nestes sistemas de produção animal em clima de savana (Aw) ou monção (Am) . Quando maior for o número de meses secos pior é a situação. No caso de Timor, a melhor zona de ervagens situa-se na costa Sul e ponta Leste, onde o número de meses secos é menor, mercê da ocorrência de duas estações de monções. Nestas regiões planas, das poucas que se registam no país, o solo permanece sempre húmido e ocorre frequentemente o pastoreio no sob-coberto de coqueiral. Nas restantes regiões, os animais são levados a pastorear nas encostas, não fazendo mais do que agravar a erosão dos terrenos.
A expansão da pecuária é refém da longa estação seca. A pior situação verifica-se no final da estação seca, em que animais e pessoas sofrem muito frequentemente, demasiado frequentemente, de carência generalizada de alimentos.

3. Os animais de Timor-Leste

Para fazer face a este meio hostil o agricultor timorense dispõe todavia de efectivos animais de grande rusticidade, bem adaptados ao clima, ao relevo acidentado e aos alimentos grosseiros. Destacam-se pela sua omnipresença, os pequenos bovinos balineses (Bos javanicus), explorados em toda a Indonésia e também na ilha de Timor, com a principal função de produção de carne. São animais bastantes rústicos, encontrando-se no estado selvagem, em algumas ilhas do vasto arquipélago indonésio. Em Timor são frequentes nos restolhos do arroz ou nas pequenas hortas, presos a uma corda. Já foram exportados em grande quantidade para a Austrália durante o período português do último século, tendo o seu número sido bastante reduzido com a invasão indonésia.
O búfalo dos pântanos (Bubalus carabanensis) está ligado à cultura do arroz e encontra-se em maior quantidade na costa sul. É um animal bastante rústico, de porte inferior ao do búfalo dos rios (Bubalus bubalus), bastante utilizado nos trabalhos de preparação dos canteiros de arroz mediante a lavoura por pisoteio. O timorense denomina bovinos e bubalinos de modo semelhante: o búfalo (carau) , e os bovinos ( carau-vaca).
Regista-se igualmente a omnipresença dos caprinos (bibi), de modo particular no interior acidentado do território, consumindo os resíduos das culturas das hortas e a vegetação espontânea. O seu livre pastoreio conduz, todavia, a graves problemas de destruição do coberto arbóreo e arbustivo, que tenta vingar nas encostas erodidas. Constitui por isso, presentemente, sério obstáculo a todos os empreendimentos de reflorestação, devendo neste caso serem realizados esforços para que a sua criação passe a ser realizada em confinamento.
Nas zonas mais secas da costa norte (zonas de clima B, fig. 1) encontram-se numerosos rebanhos de ovelhas (bibi-malai, literalmente, “cabra estrangeira” na língua tétum). Está particularmente adaptada a este meio muito seco da costa norte, pastoreando a vegetação espontânea das zonas litorais e dos restolhos de arroz. A sua criação destina-se à obtenção de crias para venda.
De registar ainda o pequeno cavalo timorense (cuda), o Equs cabbalus asiaticus (Castro, 1996), um útil animal de transporte de cargas e pessoas, por todo o interior acidentado do território; os galináceos timorenses (manu), também criados para alimentar o desporto nacional, a luta de galos; o porco asiático (fahi), criado em regime livre, voraz consumidor de todo o género de resíduos e verdadeiro flagelo das zonas urbanas.

4. Entraves à produção animal de ordem sócio-económica e cultural

Como já foi referido, a maior parte do território, tem vocação claramente florestal. Gomes (1950) diz claramente que “Timor é um problema florestal”. Esta característica de Timor-Leste poderá ser, em parte, responsável pelo estado de subnutrição em que vive a maioria da população timorense. A conjugação de solos esqueléticos, um relevo jovem e por isso muito acidentado, e uma estação seca mais ou menos prolongada conjungam-se para tornar insuficiente a produção agrícola das várzeas das ribeiras e das planícies litorais e dificultar consideravelmente uma intensificação da produção animal..
Espanta por vezes o visitante que, dispondo de considerável biodiversidade pecuária, tenha o timorense uma dieta com tanta escassez de proteínas. Julgamos que este deficit está ligado às dificuldades enfrentadas pelos agricultores na criação de gado e que anteriormente se referiram. Dificuldades que têm, assim, expressão na cultura e nas tradições, numa zona, que, é bom não esquecer, também recebeu importante contribuição das civilizações asiáticas do arroz.
A carne é sobretudo consumida por altura das festas, sendo os ruminantes, principalmente o carau, componente tradicional do barlaque, ou dote pago à família da noiva. Como um pouco por todo o mundo tropical, o gado representa igualmente uma forma de acumulação do capital, por ausência de uma economia de mercado suficientemente desenvolvida, e tem um papel de conferir estatuto social ao proprietário.
O consumo de leite, e seus derivados, não é prática comum, mesmo o da espécie caprina. A subnutrição infantil, até em zonas de abundância de fêmeas ruminantes é, por isso, muito vulgar, situação que poderia ser resolvida através de campanhas de informação e sensibilização das populações. A divulgação de processos caseiros de transformação de leite de cabra , ovelha e búfala, em queijo, manteiga e outros produtos, afigura-se de grande importância, e está já a ser levada a cabo por instiuições de promoção social.
As epizootias, por sua vez, retiram parte importante dos animais a este sistema produtivo já de si débil, e onde as campanhas de prevenção e vacinação se deparam com falta de verbas necessárias à sua prossecução. Foi assim que tivemos oportunidade de presenciar a epidemia de Doença de New-Castle que em Maio de 2003, infligiu muitas baixas ao efectivo avícola da região de Díli. Facto de sobremaneira grave se tivermos em conta que os ovos constituem uma das principais fontes de proteína animal da população.
A fértil e plana costa Sul encontra ainda o seu desenvolvimento agrícola bloqueado, pelos difíceis acessos às regiões mais povoadas da costa Norte e ao porto de Díli. De resto, a manutenção das principais vias em condições de transitabilidade afigura-se em Timor tarefa díficil, pois o relevo vigoroso favorece as avalanches e as enxorradas na estação húmida, com destruição de estradas e pontes. A este fenómeno também não deverão ser alheias as práticas agrícolas que não favorecem a infiltração das águas nas encostas e planaltos das terras altas do interior.

5. Recursos pratenses e forrageiros
No contexto actual de desenvolvimento da jovem nação, e quando a população dá sinais de crescimento, governo, particulares e organizações, dão passos no sentido do desenvolvimento agro-pecuário e florestal acelerados. Simultaneamente atravessa-se uma fase de recuperação do tecido económico, na sequência da devastação generalizada do pós-referendo de 1999.
Como linhas directoras deste processo, encontra-se a melhoria da produtividade das culturas de subsistência, principalmente o milho e o arroz, a florestação das principais bacias hidrográficas com espécies autóctones de grande procura internacional como o sândalo, teca e o pau-rosa. Na vertente pecuária assiste-se a um esforço de melhorar o estado sanitário dos efectivos e a sua alimentação, bem como de criar infra-estruturas de abate e distribuição. No sector do café, o país dá prioridade ao nicho do café biológico, como estratégia para aumentar os rendimentos provenientes desta cultura, numa fase em que os preços mundiais desta matéria-prima sofrem forte declínio.
Os sistemas de agricultura de Timor são predominantemente constituidos pelas hortas circundando as habitações, culturas de agricultura itinerante, em regime de abate e queimada, a agricultura de pequena plantação com cafezeiros, a orizicultura em canteiros e a criação de ruminantes no sob-coberto de coqueiros. Enquanto a agricultura itinerante é o sistema de aproveitamento do solo mais difundido, a produção de café limita-se às zonas montanhosas da região oeste. A produção de arroz em canteiros concentra-se nas várzeas interiores e litorais, aparecendo por vezes sob a bela forma de socalcos (região de Ossu). As plantações de coqueiros podem ser encontradas por todo o território, mas predominam nos terrenos planos da costa Sul.
Integrando-se em menor ou maior grau nestes sistemas, a pecuária assenta na exploração das pastagens naturais, nos arbustos, como os bambus, e folhas e frutos de árvores, bem como no aproveitamento dos resíduos das hortas, das culturas arvenses e das árvores de fruto. Em Timor são particularmente as folhas da fruta-pão (Artoccarpus altilis e A. communis), da bananeira e da papaieira, as mais usadas na alimentação animal. Também o consumo das herbáceas do sob-coberto das plantações de café e coqueiros, entre outras, constitui importante fonte alimentar para o gado. A instalação de pastagens artificiais ainda tem uma expressão muito reduzida. Todavia, o incremento desta actividade pode constituir uma importante oportunidade para substituir as queimadas como fonte de elementos fertilizantes para as culturas, fomentar a fixação de azoto no solo, impedir a erosão, incrementar a produção de carne e leite e melhorar as condições de vida das populações, através de uma melhor nutrição, sobretudo das suas camadas mais jovens. Permitiria ainda recuperar a actividade de exportação de gado, em que Timor já ocupou lugar de destaque naquela zona da Ásia (Gomes, 1950) , promovendo a entrada de divisas no país.

5.1 As pastagens herbáceas
Nos terrenos descobertos pelo corte da floresta e pelas queimadas dos agricultores itinerantes, a um ano ou dois de culturas, segue-se um pousio herbáceo com forte predominância das gramíneas. Nas zonas mais elevadas e chuvosas, o pastoreio contínuo e o fogo, impediu a reconstituição da mata e o uso agrícola do solo, passando este a ser coberto por pastagem natural permanente. Muitas das gramíneas destas pastagens têm bom valor alimentar, como assinalaram Gomes (1950 ) e Soares (1962 ). Destacam-se de entre elas: Brachyaria spp, Chloris gayana Kunth, Cynodon dactylon L., Digitaria sanguinalis L., Echinocloa colonum L., Eleusine indica Gearten, Panicum repens L., Paspalum spp, Setaria glauca L..
Verdadeiro flagelo nestas pastagens espontâneas, as gramíneas Imperata cylindrica e Sacharum espontaneum, com o seu comportamento invasivo, diminuem bastante o valor alimentar destes prados. Imperata cylindrica é de resto, referida para toda a zona tropical, como uma das infestantes das culturas de combate mais problemático (Ruthenberg, 1971). Na costa Sul também populações invasivas do género Lantana camara, de muito díficil combate, comprometem a utilização das gramíneas naturais sobre solos de grande potencial. Nesta região plana, são frequentes as plantações de coqueiros associadas a pastagens com predomínio de Digitaria spp., consumida por bovinos e búfalos. Trata-se de um sistema bastante sustentável e que tem assumido grande sucesso na zona tropical das Américas e da Ásia.
No restante território, a implantação de pastagens herbáceas deve ser encarada com bastante precaução, dado o acidentado do terreno e o perigo de erosão associado. Constituem aqui zonas favoráveis, embora de expressão reduzida, os terrenos planos do fundo dos vales e os planaltos, bem como os solos armados em terraços ou socalcos.

5.2 As forragens arbóreas.
À excepção das zonas mais frias dos cumes montanhosos (clima Cw) abundam em Timor-Leste árvores forrageiras de grande interesse pecuário. Destacam-se as espécies:
Leucena leucocephala, Gliricidia sepium, Sesbania grandiflora, Calliandra calothirsus , Moringa oleifera e Tamarindus indica. Segundo alguns autores (Ibrahim et al., 1988), também a Paraserianthes falcataria , a principal sombreadora do café ou madre de cacau em Timor, produz forragem de razoável valor alimentar.
Vários trabalhos destacam particularmente as primeiras três destas espécies como fornecedoras de proteína e fibra altamente digestíveis, proteína by pass, glúcidos solúveis e sais minerais, tornando-as o suplemento alimentar mais conveniente para a estação seca, quando o alimento de base é altamente fibroso, particularmente gramíneas secas e palhas de arroz ou milho. A vantagem de usar mesmo que pequenas quantidades da folhagem daquelas árvores leguminosas na suplementação do gado reside na sua riqueza em proteína (25 a 30% da matéria seca), parte da qual escapa à degradação ruminal. De acordo com Bamualin et al (1984) cit. por Preston e Leng ( 1987) a farinha de folhas de leucena deu resultados equivalentes aos de uma infusão abomasal de caseína, na estimulação da ingestão voluntária de feno de baixa qualidade, em bovinos.
A concentração em energia metabolizável das folhas destas espécies arbóreas é da ordem de 7,52 MJ/Kg MS (Bayer e Waters-Bayers, 1998).
O cultivo destas espécies sob a forma de banco de proteína permite alimentar o gado, controlar a erosão, enriquecer o solo em azoto e produzir mais estrume para as hortas ((Pell, 1999), aumentando assim a produtividade global do sistema. Para atingir este objectivo é importante recorrer ao mulching com os ramos destas espécies e incorporar no solo a urina e os dejectos do gado (Pimentel e Wightman, 1999).
Nos anos mais secos, o final da estação seca e o príncípio da estação húmida (Novembro- Janeiro) tornam mesmo imprescíndível o recurso a estas pastagens aéreas, como alimento de emergência, à semelhança do que ocorre com os arvoredos das zonas mediterrânicas durante os períodos de seca que igualmente caracterizam este clima.
É frequente nestas alturas de grande carência alimentar nos animais e também nas pessoas, observar-se por todo o território, mulheres e crianças colhendo ramagens para alimentar o gado.

Leucaena leucocephala
A leucena, denominada em língua tétum ai-café, é das árvores forrageiras mais utilizadas em Timor-Leste, onde se encontra em povoamentos espontâneos ou como espécie cultivada, mesmo nas encostas mais inférteis e inclinadas. As suas vagens servem também de alimento às pessoas, depois de torradas. Aproveita-se a sua lenha e nos cafezais tem o papel de árvore sombreadora. Tem um importante papel como planta recuperadora de solos e as suas flores são muito procuradas pelas abelhas (Dix et al., 1999). Pode crescer até aos 10 m, sendo mantida como arbusto, quando utilizada para fins forrageiros. A espécie é fixadora de azoto e possui raízes muito profundas, o que lhe permite sobreviver à estação seca. Adapta-se bem a solos pobres mas bem drenados e que recebam um mínimo de 750 mm anuais de chuva. A planta é originária da América Central e expandiu-se por toda a zona intertropical. Na Herdade da Mitra, em Évora, existem alguns exemplares adultos, mas que se despem de folhas durante o Inverno, quando sujeitas às geadas.
A leucena produz um aminoácido não proteico, a mimosina, que é degradado no rúmen em dihidroxipiridina (DHP), uma substância bociogénica. Em algumas regiões do Mundo esta substância não constitui obstáculo ao consumo da leucena, pois a flora ruminal contém a bactéria Synergistes jonesii, que metaboliza a DHP. Tal é o caso da Indonésia (Pereira et al., 2002) e, presumivelmente, Timor-Leste.
No Norte da Austrália, muito perto da ilha de Timor, O’Gara (1998) conseguiu ganhos médios diários em bovinos alimentados com leucena superiores a 1,0 Kg/dia e estimou uma digestibilidade da matéria seca de 75 % e um teor em proteína bruta de 20-25%, para as folhas desta leguminosa. Segundo Peackoc (1999) as folhas frescas possuem 30,7 % de matéria seca (MS) e 24,2 % de proteína bruta, enquanto nas vagens estes valores são de 91% e 35,8%, respectivamente. A concentração energética da planta integral ronda 2,13 Mcal/Kg MS (Pereira et al, 2002) sendo por isso semelhante à da cana de açúcar ou do milho em verde.
Podemos dizer que o principal problema que esta forrageira apresenta em Timor é a sua sensibilidade a determinadas pragas, nomeadamente psilideos (Heteropsylla cubana), que nos anos 80 dizimaram as leucenas da ilha, com grandes prejuízos para os criadores de gado (Bayer e Waters-Bayers, 1998).
O seu cultivo deve pois ser fomentado, mas em associação com outras forrageiras perenes ou herbáceas, idealmente num sistema de banco de proteína ou plantada nas hortas que envolvem as habitações. De acordo com Bayer e Waters-Bayers (1998) nas ilhas vizinhas de Timor, um agricultor engorda por ano dois a três bovinos balineses , a partir de 1 a 1,3 ha de leucenas densamente cultivadas e numa dieta consistindo quase inteiramente nesta forragem. Pimentel e Wightman (1999) preconizam o sistema intercultural leucena-palha de millho, salientando o importante contributo da primeira para a nutrição animal e para a produtividade do cereal.

Sesbania grandiflora
A sesbania ou ai-turis, é uma árvore leguminosa de crescimento rápido e bem adaptada às condições edafo-climáticas de Timor. É uma planta que se pode encontrar mesmo nos solos mais pobres, até aos 1000 m de altitude e com precipitações mínimas de 800 mm (Peacock, 1996). Atinge 8 a 10 m de altura e cultiva-se normalmente nas hortas dado o seu grande poder fixador de azoto e baixa densidade da copa. Surge também nas ruas e nos jardins das principais localidades de Timor-Leste. As suas grandes flores, vermelhas ou brancas, possuem grande valor ornamental.
Presume-se que seja autóctone do arquipélago indonésio, apesar de se distribuir presentemente por todas as regiões tropicais. Consomem-se sobretudo as suas grandes flores, brancas ou vermelhas, em variados pratos da cozinha timorense , assim como as suas vagens verdes e as folhas. Em Timor não é uma espécie vulgarmente destinada à alimentação animal, apesar do bom valor nutritivo da sua folhagem. Na Indonésia a sua utilização como forragem está bastante difundida, chegando a constituir 70% da dieta dos ruminantes durante a estação seca. Evans (1990) estimou em 25 a 30 % o teor em proteína bruta da folhagem e digestibilidade semelhante à da leucena.

Calliandra calothirsus
Podemos observar algumas plantações recentes de caliandra em Timor, destinadas à alimentação do gado. A espécie exige uma precipitação mínima de 1000 mm e desenvolve-se muito rapidamente.
É razoavelmente tolerante à secura suportando até 6 meses secos, resiste bem ao encharcamento do solo mas é sensível às baixas temperaturas, não subindo para lá dos 1900 metros (Peacock, 1996). Largamente utilizada na Indonésia e outras ilhas do Pacífico, para enriquecer o solo, alimentar o gado e produzir lenha, a caliandra cresce rapidamente, produzindo rebentos, folhas e flores com 20-25% de proteína bruta. A digestibilidade das folhas, rondando 30-60%, é inferior à da leucena em virtude do maior teor em taninos, sendo, em contrapartida, resistente às pragas que atacam aquela. Ao compasso de plantação de 2 x 0,5 m podem-se obter 3 a 8 t/ha de matéria seca anualmente (Powell, 1997).


Paraserianthes falcataria
Conhecida em Timor como ai-santuco esta leguminosa é autóctone do sudoeste asiático. P. falcataria ou Albizia falcataria é a madre de cacau de Timor-Leste, sendo pois como sombreadora dos cafezais que se expandiu por todas as plantações desta cultura. Encontra-se hoje em dia sujeita a grande mortalidade devido ao ataque pelo fungo Uromycladium tepperianum (Cristovão e Old, 2003). É uma espécie muito pouco usada na alimentação do gado em Timor, à excepção dos cavalos que são alimentados com as suas folhas e vagens.
Ibrahim et al (1988) em testes efectuados com borregos registaram, todavia, ganhos de peso de 57g/dia em animais suplementados com a folhagem de P.falcataria, superiores aos de outros suplementados com leucena (15g), caliandra (33g)e gliricidia (34g).
Raharjo e Cheeke (1985) estudaram a palatabilidade em coelhos, tendo determinado valores semelhantes aos da leucena. As suas folhas também são utilizadas na alimentação de ruminantes e das aves domésticas no sudeste asiático (Nguyen Ba Chat et al. ,1996). Estes dados indicam que poderá vir a ser incrementado o seu uso em Timor, na alimentação animal, tanto mais que se trata de uma espécie de muito rápido crescimento e recuperadora de solos. Plantada em ruas espaçadas de 4 m, produz 2-3 t/ ha/ano de folhas secas, muito usadas na Indonésia para a fertilização dos canteiros de arroz.

Tamarindus indica
O tamarindo ou ai-sucair é omnipresente em Timor Leste, à excepção das zonas acima dos 1500 m, desenvolvendo-se igualmente bem nas áreas semi-áridas da costa Norte. Na ponta Leste, como em Totuala, forma vastas manchas florestais naturais. É uma árvore leguminosa que não fixa azoto, de crescimento lento, mas de grande longevidade e muito rústica, pois vegeta bem numa vasta gama de solos. As suas vagens e sementes são ricas em lípidos, amido e proteínas e largamente utilizadas na alimentação humana nas zonas tropicais.
Em Timor a população usa as suas vagens sobretudo para a confecção de vários pratos e na medicina tradicional. Plantado no compasso de 15 x 15 m o tamarindo pode produzir até 35 t/ha de vagens. Devendra (1992) estimou o teor em matéria seca e PB das folhas em, respectivamente, 28% e 14% . A sua principal limitação como forragem é o lento crescimento e a demorada rebentação que exibe. Porém, as suas vagens e folhas secas podem ser consumidas no solo pelos animais, num aproveitamento do tipo silvopastoril.

Gliricidia sepium
Com origem na América Central, a gliricidia ou gamal é uma árvore pouco frequente em Timor, encontrando-se alguns exemplares nas praças e jardins, na zona envolvente do Cristo-Rei, em Díli, em Vate-voo na Quinta do Sr. Serra, ou na vacaria da NCBA, em Comoro. Na estação seca perde as folhas e a sua profusa floração rosada possui grande valor ornamental. Em todo o mundo tropical é uma das árvores mais utilizadas pelos agricultores, em virtude da sua grande rusticidade e variedade de utilizações. Fornece lenha, forragem e adubo verde. Planta-se como sebe viva e nos solos destruidos pela erosão, como espécie pioneira.
Nos cafezais é plantada como espécie sombreadora. Pode ser cultivada até aos 1200 m e com uma pluviosidade variando entre os 600 e 3500 mm, mesmo que a estação seca se prolongue por 9 meses. Tolera todos os solos excepto os muito ácidos, de pH inferior a 4,5. Regenera-se com facilidade após uma queimada e o seu nome em língua indonésia, gamal, significa literalmente “destruidora de Imperata” (MacDicken et al, 1997), o que atesta a facilidade com que faz o controlo biológico desta agressiva gramínea infestante.
A gliricidia é das árvores forrageiras que melhor responde ao corte dos seus ramos, produzindo abundante rebentação de bom valor alimentar. O seu teor em proteína bruta varia entre 15 e 30%, consoante se trate de raminhos e folhas jovens ou tecidos mais lenhificados e o teor em matéria seca ronda 25% (Devendra, 1992).

Apresenta contudo um valor energético e proteico inferior aos da leucena e os animais levam algum tempo a habituar-se ao seu consumo. A produção de biomassa pode ascender a 5 t MS/ha (Bayer e Waters-Bayers, 1998).

Moringa oleifera
Originária da India, M. oleifera ou marungi é outra leguminosa arbórea muito difundida em Timor- Leste. A população consome sobretudo as suas longas vagens ainda novas (até 45 cm), semelhantes ao feijão-verde, mas também as suas folhas e flores, geralmente em sopas. À semelhança da gliricidia é uma árvore multifunções de grande rusticidade, proporcionando forragem de grande qualidade para os animais, incluindo os suínos.
É ainda utilizada na medicina tradicional em todo o Sudeste asiático. As suas sementes contêm 40 % de óleo que é usado na confecção de alimentos, sabonetes, produtos cosméticos e na iluminação. A farinha das sementes possui propriedades purificantes da água. O bagaço obtido após a extracção do óleo constitui um bom suplemento proteico para os animais (Sutherland et al., 1994) . Nas zonas tropicais cultiva-se sobretudo nos solos frescos, especialmente nas hortas que circundam as habitações e como planta pioneira, nos solos degradados em fase de recuperação. Vai até aos 750 m de altitude e nas zonas com 750 a 2500 mm de precipitação anual, resiste bem a uma estação seca prolongada mas não suporta o encharcamento (Hensleigh & Holaway ,1992 cit. por Jensen ,1995).
6. Conclusão
Os solos, o relevo e a longa estação seca tornam Timor-Leste particularmente vocacionado para sistemas agroflorestais e silvopastoris. Urge sobretudo proceder à recuperação dos solos degradados pela desflorestação sistemática a que o território foi sujeito ao longo dos séculos, sendo condição indispensável terminar com o sistema de queimadas, que de ano para ano continua a destruir agroecossistemas já de sí muito frágeis. A fertilização dos solos efectuada pela cinza da queimada deverá dar lugar à matéria orgânica proveniente do cultivo de leguminosas e da criação de gado.
Neste contexto, o aumento do cultivo de pastagens e forragens nos terrenos planos, é um objectivo desejável, mas a área disponível para este fim é escassa e destina-se sobretudo aos cultivos de primeira necessidade. É possível, todavia, fora destas áreas incrementar a produção animal e a de elementos fertilizantes, através das culturas arbóreo-arbustivas forrageiras anteriormente referidas. A biodiversidade deste sistema agro-florestal pode ser ainda potenciada pela associação de árvores forrageiras à cultura do cafezeiro, como sombreadoras, ou ao cultivo de espécies florestais, como o sândalo , o mogno, o pau-rosa ou a teca.
Por outro lado, torna-se sustentável o incremento da produção de leite e carne, o que contribuirá para aliviar o problema da subnutrição crónica das populações e o da carências de alimentos que regularmente se faz sentir nas zonas rurais.
A criação de viveiros escolares e de viveiros comunitários, ao nível de cada suco ou aldeia, poderão ser estratégias a prosseguir.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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segunda-feira, maio 05, 2008

Ai Na (Pterocarpus indicus)



Ai na ai furak Timor nian. Nia ai leguminosa, ne'e duni fahe azotu iha rai. Ninia ai vale osan barak tan bele exporta nia ba hotu Mundo principalmente atu halo mobília. Iha Timor ai na moris hotu fatin karik laiha malirin.
Ita la bele kuda ai na iha to'os tanba nia subar naroman. Maibe Ita bele kuda ai na iha rua sira, jardim no kuda atu exporta ninia ai. Bani gosta ai-funan tebetebes. Ai na proteje to'os hasouru anin no proteje rai hasouru erosau. Iha natureza ai na integra ai-laran tasi mane no la'o ho ai-dak, ai-lok, ai-nitas, ai-solda, etc... Ema bele kuda ai na ho mussan ka estaka, iha viveiro. Afoin, iha fulan Novembro (hahú baiudan), sei transplanta ai kiik ba to'os. Naran científiku "Pterocarpus indicus" katak ai-fuan ho liras hosi India.

O pau-rosa é uma árvore da família das leguminosas, originária da Malásia, Tailândia, Vietname, Sumatra, Bornéu, Filipinas, China e Índia. Em inglês é chamada de narra ou rosewood e em francês santal rouge amboine. Comercialmente também é conhecida nos mercados internacionais por "amboyna".
O seu nome científico significa fruto (carpus, em grego) com asas (ptero, em grego) da Índia (indicus, em latim).
A árvore é de grande porte, podendo crescer até aos 48 m e 1,5 m de diâmetro, e possui uma copa muito densa, de onde surgem ramos que podem pender até ao solo. As folhas são caducas, embora as árvores possam manter a folhagem nas zonas húmidas. São compostas de 7 a 9 folíolos ovais de um verde brilhante, com 6-12 cm de comprimento e 3-7 cm de largura, apresentando margem inteira.
As flores têm cerca de 1,5 cm, cheiram agradavelmente e estão agrupadas em panículas. Têm cálice alongado castanho – prateado e corola amarela. A floração ocorre por períodos de 1 a 2 dias e apresenta variação geográfica. Em Timor –Leste a floração ocorre nos meses de Fevereiro e Março.
Os frutos do pau-rosa são vagens aladas, espalmadas e em forma de disco com 5-6 cm de diâmetro, apresentando uma asa com a textura de papel. As vagens surgem em cachos e são verde claras, passando a castanho quando maduras. São indeiscentes (não deixam cair as sementes) e podem conter até 3 sementes. Estas amadurecem durante 3 a 4 meses após a floração. As sementes têm forma de feijão, são achatadas e medem 6 a 8 mm de comprimento. A dispersão faz-se principalmente pelo vento mas as vagens podem flutuar, pelo que junto às ribeiras e aos lagos a dispersão pela água é muito importante.
As raízes de pau-rosa fixam azoto e desenvolvem-se bastante junto à superfície dos terrenos e como consequência as árvores novas resistem mal às infestantes, como a Imperata cylindrica (hakmaulain) e outras gramíneas. Quando novas precisam de ser mondadas com cuidado. Outra consequência deste desenvolvimento das raízes é que esta árvore não é muito indicada para ser plantada nos passeios das ruas, pois danifica os pavimentos.
A madeira é formada por borne pouco abundante e acinzentado e cerne castanho – avermelhado, com laivos dourados ou vermelho escuros, por vezes com tons rosados ou alaranjados. O pau-rosa é muito apreciado e vendável, devido à facilidade com que se trabalha, durabilidade, pequena susceptibilidade ao ataque de fungos e insectos, beleza de cor e desenho, assim como resistência às formigas.
É empregada em marcenaria, contraplacados, folhados, obras de torno e de talha.
A madeira desta árvore tem grande procura mundial pois é usada no fabrico de mobílias de grande qualidade e beleza.
Planta-se também como árvore ornamental em jardins, parques e ruas, como se pode observar nos exemplares que existem por toda a cidade de Díli e nas outras cidades, vilas e knuas de Timor-Leste, bem como noutras cidades do Pacífico.
Pode ser uma das árvores de sombra para culturas como o café e o cacau, enriquecendo o solo com o azoto que fixa nas suas raízes e com a queda das suas folhas, mas não é muito indicada para as hortas pois causa forte ensombramento das culturas no sobcoberto.
Pode ser usada como espécie quebra-vento pois os seus ramos desenvolvem-se até a chão, e também é muito usada como cerca viva à volta dos terrenos.
As suas flores são muito procuradas pelas abelhas.
De modo geral considera-se que esta árvore tem grande importância ecológica, ajudando a fixar os solos ao longo das linhas de água e ribeiras, com as suas grandes raízes superficiais.
Tem alguns usos medicinais. O seu látex vermelho é usado em algumas partes do mundo para curar tumores.
As suas condições climáticas incluem precipitação média anual entre 1200 mm a 3000 mm, temperatura media mensal à volta de 27ºC e altitude até 1300 m. É uma árvore que gosta de humidade e assim desenvolve-se melhor naquelas regiões onde a estação seca não é muito longa. De referir que, para além de ser espontâneo na ilha de Timor, o pau rosa desenvolveu aqui e na ilha de Sumba vizinha, indivíduos bem adaptados à secura. É uma planta sensível aos ventos marítimos, pelo que não se recomenda a sua plantação nas zonas muito perto do mar. Todavia, por vezes encontram-se indivíduos junto do mar, mesmo em Timor-Leste, tal como o exemplar existente em frente ao Hotel Timor. Estes indivíduos deverão ter folhas mais resistentes ao sal, pelo que seria interessante estudar estas plantas.
O pau-rosa adapta-se bem a uma grande variedade de solos, mas atinge os desenvolvimentos máximos naqueles que são profundos, férteis, particularmente nos aluviões bem drenados. Prefere pH próximo da neutralidade.
Segundo Ruy Cinatti o ai na faz parte integrante da floresta de monção da costa norte de Timor-Leste, onde os meses de chuva podem ser inferiores a seis. Aqui associa-se às espécies Schleichera (ai-dak), , Wrightia, Acacia, Corypha (tali), Vitis, Pterospermum (ai-solda), Sterculia ( ai-nitas), Ziziphus (ai-lok), Bauhinia, etc…
É uma árvore de fácil cultivo, quer a partir de sementes quer a partir de estacas. Recomenda-se a utilização de sementes em viveiros e a posterior plantação no início da estação das chuvas.
Bibliografia:
PROPAGAÇÃO VEGETATIVA POR ESTACA CAULINAR DE PTEROCARPUS INDICUS E ACACIA MANGIUM
Estágio da Licenciatura em Ciências Agrárias
Adelino da Costa Ximenes
UNIVERSIDADE NACIONAL DE TIMOR LOROSA’E, 2007

Acacia mangium


Acácia mangium é uma árvore da família das leguminosa. Tem grande rapidez de crescimento e, principalmente, por ser uma espécie nitrificadora, é de grande importância para reflorestação e reabilitação de solos tropicais. Tem origem no Nordeste da Austrália, Nova Guiné e na Indonésia. É uma árvore perenifólia de copa ovalada com folhagem densa. Tem sementes brilhantes e estas apresentam dormência, o que representa uma dificuldade na produção de plantas jovens em viveiros e programas de reflorestação. Antes de semeadas as sementes devem ser, por isso, tratadas com água quente. Esta árvore forma híbridos com a Acacia auriculiformis, árvore existente em Timor-Leste.
Acácia mangium apresenta usos variados, entre eles a construção civil, fabrico de móveis, produção de energia e ainda recuperação de solos.
Devido à sua elevada capacidade de fertilização de solos, ela vem sendo intensamento utilizada associada com o café, os cacaueiros e na recuperação dos solos.
As flores são melíferas e a apicultura em povoamentos de A. mangium é uma actividade altamente lucrativa.
As folhas de acácia também podem servir para alimentar o gado.
É espécie florestal de elevada rentabilidade financeira, razão da existência de extensos reflorestamentos na Ásia (Indonésia, Malásia, Filipinas, Índia e Vietname) onde actualmente existe mais de 3,5 milhões de hectares plantados para os mais variados usos, graças à sua rusticidade, elevada taxa de crescimento (5 m/ ano), boa adaptabilidade e qualidade de madeira, elevada capacidade de desenvolver em ambientes degradados e solo pobres.
Na Indonésia tem-se plantado estas árvores em grande escala, e uma das razões, é que resiste bem à invasão da gramínea infestante Imperata cilíndrica (du'ut manu lai), um dos principais problemas das regiões tropicais. Debaixo das copas de A. magium, e usando o azoto por ela fixado, desenvolve-se depois uma rica vegetação espontânea. Desta maneira, esta acácia pode tornar-se numa arma para reparar as florestas tropicais destruídas como as de Timor Leste, invertendo a perda da biodiversidade florestal e fornecendo em simultâneo, madeira para cozinhar e para rendimento, alimento para o gado e melhoramento do solo.
Adapta-se aos solos ácidos, compactados, de baixa fertilidade ou degradados, sem calcário e com baixa drenagem. É uma espécie com potencial para cultivo nas zonas baixas e húmidas. Cresce em solos com teor de fósforo muito baixo e adapta-se mal a solos calcários.
A área de distribuição desta espécie corresponde à zona de clima tropical húmido, preferindo lugares com chuva abundante. Em Timor-Leste podemos encontrar alguns exemplares junto aos viveiros da Cooperação Agrícola Portuguesa, em Ermera( como o da fotografia).
Bibliografia: Propagação vegetativa por estaca caulinar de PTEROCARPUS INDICUS e ACACIA MANGIUM
Estágio da Licenciatura em Ciências Agrárias
Adelino da Costa Ximenes
UNIVERSIDADE NACIONAL DE TIMOR LOROSA’E
2007